Entre 2020 e 2025, o Brasil registrou um crescimento preocupante nos números de intoxicação alimentar, também chamadas de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA). Os dados apresentados no gráfico que montei mostram que, ao longo desses cinco anos, o total de casos quase triplicou, revelando uma tendência constante de aumento e indicando falhas importantes nos sistemas de segurança alimentar, tanto domésticos quanto comerciais.
2020: O ano que marcou o início da curva de crescimento
No início da série, em maio de 2020, os números giravam em torno de 3.300 casos. Mas, ao longo daquele ano marcado pela pandemia e pela intensificação do consumo de delivery as notificações cresceram rapidamente, ultrapassando a casa dos 5.500 casos.
Possíveis fatores que influenciaram esse aumento incluem:
Manipulação inadequada de alimentos em cozinhas domésticas,
Falta de capacitação de manipuladores de estabelecimentos recém-abertos,
Aumento de produção de alimentos fora do ambiente controlado.
2021: Picos acentuados e instabilidade
Em 2021, observa-se um comportamento irregular, mas com tendência de alta. Os casos chegam a atingir níveis próximos de 7.700, especialmente no fim do ano.
Sazonalidades podem ter contribuído:
Festas de fim de ano,
Altas temperaturas e armazenamento inadequado,
Retomada de eventos sociais e coletivos após o auge da pandemia.
2022: Oscilações, mas mantendo patamares elevados
Durante 2022, os números seguem elevados, frequentemente acima de 6.500 casos por mês, com picos chegando perto de 8.000.
Isso reforça a hipótese de que o problema deixou de ser pontual e passou a se tornar estrutural, indicando que:
As boas práticas de manipulação não estão sendo aplicadas de forma consistente,
Há falhas recorrentes no controle de temperatura,
Persistem problemas de higiene e contaminação cruzada.
2023: Estabilidade aparente, mas ainda preocupante
Em 2023, o gráfico apresenta uma oscilação entre 6.000 e 8.500 casos, com alguns meses superando a média anual.
É importante observar que mesmo nos “vales” dos números, o patamar permanece alto, revelando que:
A população está mais exposta,
Os ambientes de produção ainda não adotaram padrões robustos de prevenção,
A fiscalização continua insuficiente para reduzir as taxas.
2024: O maior salto de toda a série
O ano de 2024 apresenta os maiores picos de toda a linha temporal, ultrapassando 11 mil casos em alguns meses.
Esse aumento pode estar relacionado a:
Altas temperaturas registradas no ano, acelerando a deterioração dos alimentos,
Crescimento do consumo de alimentos prontos e ultraprocessados,
Aumento de eventos, festas e alimentação coletiva,
Falhas graves no controle sanitário em estabelecimentos.
2025: Um início de ano ainda elevado
Já em 2025, até março, os números permanecem altos, próximos a 9.500 casos, mostrando que:
O problema persiste,
Medidas preventivas não estão sendo aplicadas de forma eficaz,
A população e os manipuladores ainda não dominam as práticas essenciais de segurança dos alimentos.
Por que as intoxicações alimentares continuam aumentando?
Com base na evolução dos dados, alguns fatores podem estar contribuindo:
Falta de capacitação contínua dos manipuladores, tanto em cozinhas profissionais quanto domésticas.
Crescimento de estabelecimentos informais e produção caseira sem controle sanitário.
Mau armazenamento e transporte de alimentos, especialmente em regiões quentes.
Descuido com a higiene e aumento da contaminação cruzada.
Mudanças nos hábitos alimentares, com mais refeições prontas e delivery.
Consequências para a saúde pública
O aumento das DTA traz impactos diretos e indiretos:
Mais atendimentos médicos e internações,
Prejuízos financeiros para estabelecimentos,
Riscos graves para grupos vulneráveis, como crianças, idosos e gestantes,
Perda de produtividade e absenteísmo no trabalho.
Por Alline Grisi Especialista em Vigilância Sanitária, Microbiologia de Alimentos e Perita Foronse de Alimentos