Raquel Ataide: Qual o erro mais comum que você observa na alimentação de atletas e pessoas que treinam regularmente?
Ricardo Sodré: Quando o indivíduo é mau orientado ou não tem o acompanhamento de um profissional capacitado, sem dúvida, o erro mais comum é negligenciar o timming e composição das refeições. Hoje temos uma denominação chamada “peri-treino”, que é o inervalo que dura de 60 minutos até 60 minutos pós o momento que se realiza uma sessão de treinamento e esse espaço de tempo está diretamente relacionado ao rendimento e recuperação do indivíduo.
Raquel Ataide: Na sua experiência, quais ajustes nutricionais fazem mais diferença na performance esportiva?”
Ricardo Sodré: Garantir uma base nutricional pela matriz alimentar, priorizando diversidade e qualidade de alimentos com baixíssimo consumo daqueles minimamente processados.
Dedicar especial atenção ao sistema gastrointestinal, porta de acesso a todos os alimentos, nutrientes, suplementos e compostos bioativos.
Focar para que esse atleta tenha uma recuperação mais rápida, eficiente e saudável possível.
Raquel Ataide: Muita gente acha que suplemento é essencial para ter resultados. Na sua visão, qual o papel real da suplementação no esporte?”
Ricardo Sodré: Eles são uma ferramenta importante que funciona como coadjuvantes no processo de nutrição do atleta e devem ser usados em situações específicas onde há aumento de demanda por determinados nutrientes ou compostos bioativos, seja por uma condição patológica, maior carga de treinamentos ou desgaste em competições. São também uma opção de oferecer isoladamente e com a garantia de maior precisão no tipo e quantidade de nutrientes ou compostos bioativos.
Raquel Ataide: Em momentos decisivos, como campeonatos ou fases de treino intenso, o que muda na estratégia alimentar dos atletas?
Ricardo Sodré: A melhor forma de se trabalhar com essas situações é colocando em prática a chamada Periodização Nutricional, oferecendo estratégias específicas para esses momentos onde há uma maior exigência metabólica, estrutural, fisiológica visando rendimento máximo ou supra-máximo. Nesses períodos podemos ter por exemplo uma maior chance de sobrecarga no sistema imunológico ou aumento nas chances de lesão.
Raquel Ataide: Como você orienta seus pacientes a manterem a alimentação correta fora do ambiente de treino, especialmente em viagens e finais de semana?
Ricardo Sodré: É importante que o atleta desenvolva o conceito de equilíbrio e consciência nutricional. A vida “acontece” naqueles momentos fora do treino e saber gerenciá-los de forma consciente minimiza possíveis danos. O relaxamento, a desconexão da rotina e a descontração são importantes para o equilíbrio mental. Eu recomendo também, que se possível, o paciente mantenha-se fisicamente ativo.
Raquel Ataide: Qual foi um caso que mais te marcou na sua carreira, onde a nutrição fez toda a diferença no desempenho ou na recuperação de um atleta?
Ricardo Sodrè: Tenho vários casos, mas destaco aqueles onde a intervenção nutricional fez toda a diferença na recuperação de lesões por trauma onde houve necessidade de intervenção cirúrgica. E pontualmente destaco outros três inesquecíveis também: a preparação da primeira brasileira que participou e concluiu uma das maiores provas de ultra-endurance de ciclismo do mundo, a “Race Across America” (costa leste a costa oeste dos Estados Unidos); um que acompanhei filantropicamente durante quase 9 anos um atleta de baixa renda de um projeto social que chegou à seleção Brasileira de Judô e fez dois ciclos olímpicos, e o outro de um paciente que acompanhei durante toda preparação para a expedição ao Monte Everest, tendo sido o 24º brasileiro a atingir o cume da mais alta montanha do mundo.
