Não teve título, mas sobrou dinheiro. O Flamengo faturou quase R$ 1,4 bilhão em 2023, um salto de 11% na receita bruta em relação ao (vitorioso) ano anterior, segundo números prévios aos quais a coluna teve acesso. A comparação considera a atualização das receitas brutas de 2022 pela inflação. O superávit — equivalente ao lucro líquido, caso o time da Gávea fosse uma empresa — fechou em R$ 320 milhões, também recorde. As cifras, auditadas pela EY, serão submetidas ao conselho deliberativo do clube nesta quinta-feira e só devem ser publicadas oficialmente no próximo dia 30.

Parte importante do crescimento nas receitas veio de transações com atletas, que somaram R$ 303 milhões no ano, outro recorde para o rubro-negro. (Em 2022, o número fora de R$ 139 milhões, atualizado pelo IPCA). Mas, segundo apurou a coluna, a diretoria também vai destacar para o conselho a evolução das chamadas “receitas recorrentes” — linha do balanço que desconta o ganho com a venda de jogadores e, portanto, tende a ser mais fiel ao desempenho operacional do clube.

Essas receitas recorrentes ficaram em R$ 1,07 bilhão, chegando à casa dos dez dígitos pelo segundo ano consecutivo. A cifra foi cerca de 2% menor que a registrada em 2022 (corrigida pela inflação), mesmo sem a ajuda das premiações polpudas obtidas naquele ano. Com a conquista da Libertadores e da Copa do Brasil, o Flamengo colocou no caixa R$ 250 milhões em prêmios em 2022; no ano passado, que passou em branco em termos de troféus, os cheques foram de apenas R$ 137 milhões, sendo o principal destaque o vice na Copa do Brasil.

O management do Flamengo está convencido de que a manutenção das receitas recorrentes na casa do bilhão comprova que a robustez operacional do clube, embora condição para bons resultados em campo, para de pé com ou sem títulos em determinado ano, disseram fontes que acompanham o clube da Gávea.

Superávit acumulado acima de meio bilhão
Descontadas as premiações, as outras receitas recorrentes saltaram 11%, para R$ 934 milhões. O número abrange linhas como a arrecadação em dia de jogo (“matchday”, no jargão dos gestores futebolísticos), contratos de publicidade, direitos de transmissão, programa de sócio-torcedor e a venda de alimentos e bebidas no estádio.

Segundo pessoas próximas ao clube, um dos fatores que ajudaram no desempenho foi a dispensa de intermediários na comercialização de publicidade em placas estáticas em campo, já que o próprio clube assumiu as negociações no ano passado. Além disso, a despeito da falta de títulos, o Flamengo conseguiu manter estádio cheio e elevou a rentabilidade do programa de sócio-torcedor.

O superávit, que é a diferença entre receitas e despesas, cresceu 135% no ano, para R$ 320 milhões. É esse caixa que viabiliza, por exemplo, a compra de jogadores. Em cinco anos, desde o início da gestão do presidente Rodolfo Landim, o superávit acumulado foi de R$ 590 milhões. (O único ano de déficit foi 2020, auge da pandemia, com prejuízo de R$ 59 milhões).

Na outra ponta, o Flamengo gastou quase R$ 1,2 bilhão com novos atletas no período, sendo R$ 273 milhões apenas em 2023. Esses pagamentos são faseados ao longo de anos. Exemplo: no ano passado, o Flamengo pagou a última parcela das transações que trouxeram Gabigol e Pedro em definitivo, em 2020.

A alavancagem — que é a relação entre a dívida líquida operacional e o Ebitda, uma das métricas de rentabilidade operacional de um negócio — ficou em 0,7 vez, considerado baixo para padrões corporativos. (O da Petrobras está em 0,85 vez, e o da Vale, em 0,5 vez). Isso quer dizer que a geração de caixa operacional do clube em um ano mais do que cobre o endividamento líquido total. O patamar é próximo do registrado em 2022 pelo Flamengo (0,6 vez).

Ênfase na janela de cinco anos
Com o fim do mandato de Landim previsto para dezembro, o novo balanço apresentado pela diretoria ao conselho deliberativo parece ser uma espécie de prestação de contas de toda a gestão. Daí talvez venha a ênfase na janela de cinco anos, período no qual o faturamento mais que dobrou e o clube empreendeu o que a equipe de Landim entende ser, segundo pessoas próximas, um verdadeiro “turnaround” (reestruturação bem-sucedida). Considerando-se apenas as receitas de “matchday”, o crescimento foi de 16% ao ano nessa meia década.

Para fortalecer o argumento, o clube elaborou estudo interno comparando seu desempenho financeiro ao dos maiores times europeus. Os dados serão apresentados ao conselho, apurou a coluna. A base foi a lista do Deloitte Football Money League, que enumera os 30 maiores clubes do mundo e na qual o carioca não chegou a entrar.

O estudo interno do rubro-negro analisou os resultados acumulados por cada um deles nos últimos cinco anos e os comparou a seus próprios números. A conclusão foi que o superávit de € 109 milhões do Flamengo no período foi o segundo maior, atrás apenas dos € 169 milhões do Bayern de Munique. Na verdade, como a maioria dos clubes têm donos com caixas praticamente ilimitados (tipo: fundos árabes), a imensa maioria nem mesmo acumulou superávit no período. Apenas seis europeus ficaram no azul na janela de cinco anos pesquisada.